1.11.05

DIA 8 - No Jornal do Brasil

Linha direta com o artista

Intervenção de Cezar Migliorin estimula visitantes do Espaço Sérgio Porto a telefonarem para ele


Bianca Tinoco


Migliorin e o aparelho na galeria: ‘A obra só funciona quando não estou aqui’


Um dia depois de abrir a exposição Artista trabalha, no Espaço Cultural Sérgio Porto, no Humaitá, o artista carioca Cezar Migliorin recebeu uma confusa ligação no celular. ''Nossa, ele atendeu mesmo! Vem cá falar com ele'', dizia a voz na linha a uma terceira pessoa, que se esquivou do convite. A interlocutora era uma servente do Espaço Sérgio Porto, impressionada porque o aparelho de telefone exposto na sala, único objeto da exposição, realmente disca para o artista, conforme enunciado na parede da mostra.

- Mais seis pessoas me ligaram naquele dia. Uma ficou sete minutos me questionando sobre o vazio da sala, sobre o que eu pensava do vazio. Como saber quando desligar um telefonema desses? Eu, que nunca tive insônia, nessa noite acordei às 4h, pensando nas conseqüências do trabalho. Na teoria tudo é tranqüilo, mas quando entra o humano a coisa destrambelha - diz Migliorin, 36 anos, doutor em Comunicação pela UFRJ.

Mais afeito às videoinstalações, o artista conta que não pôde montar nenhuma porque o Espaço Sérgio Porto (de administração municipal) não dispõe de vídeos e televisores. Foi da falta de recursos que veio a solução para Artista trabalha, cujas contas estão listadas numa das paredes. Dos R$ 1 mil que recebeu da Prefeitura do Rio, Migliorin pagou R$ 310 de impostos, R$ 300 pela pintura da sala e R$ 50 pelo aparelho de telefone - também incluiu no relatório pró-labore de R$ 50. Os R$ 290 restantes bancam as ligações entre o telefone fixo na mostra, habilitado só com a tecla de rediscagem, e o celular do artista. Diariamente ele passa no Espaço Sérgio Porto para anotar na parede quanto resta da verba. Há o risco de o dinheiro acabar antes da mostra, no dia 27 de novembro. O resultado será o telefone mudo.

- Evito ficar muito tempo na galeria porque a obra só funciona quando não estou aqui. Não tem graça alguém ligar comigo do lado, só para ver se eu atendo. Por isso, desliguei o telefone no vernissage - conta o artista sobre a abertura, no último dia 24, que, segundo o livro de visitas, contou com presença do cineasta e cantor americano Vincent Gallo, que esteve no Rio para o TIM Festival.

Migliorin lembra que o dinheiro é um elemento que atravessa sua trajetória, em obras como o vídeo Ação e dispersão (2002) - no qual se filmava viajando, sem dormir duas noites na mesma cidade, até a verba acabar.

- É um assunto meio proibido, todo mundo reclama de falta de dinheiro mas não questiona. Em Ação e dispersão, é o dinheiro que estabelece a relação temporal, como em Artista trabalha. É sempre a verba que pauta o limite da obra de arte, o que fiz foi explicitar isso - diz.

Em seu trabalho anterior, o projeto Artista sem idéia, Migliorin mandou para 200 e-mails de formadores de opinião um edital no qual anunciava que pretendia comprar uma videoarte para chamar de sua. Ele oferecia US$ 1 mil, dos US$ 4 mil que recebeu por Ação e dispersão no prêmio Viper Basel 2004, na Suíça, para escolher um filme ou vídeo de qualquer duração. As regras eram as seguintes: ''1. a obra deve estar pronta e ser inédita; 2. uma vez vendida, os direitos sobre a obra serão integralmente cedidos ao idealizador do projeto, Cezar Migliorin; 3. a obra não será alterada, com exceção dos créditos, onde passará a constar: um filme/vídeo de Cezar Migliorin''. A proposta causou ira entre os puristas, que mandaram e-mails furiosos e escreveram comentários no blog do projeto (www.artistasemideia.blogspot.com).

- Meu trabalho foi apenas mandar as 200 mensagens. Consegui reportagens em cinco estados e uma mobilização gigantesca. Aparecia em listas de editais ao lado da Petrobras e do BNDES, como se fosse uma empresa. Essa questão de eliminar o nome do autor mexeu com os brios de alguns, o que me fez perguntar: afinal, o artista faz uma obra para colocá-la no mundo ou pelo reconhecimento? O lado enigmático é que, a partir de agora, qualquer vídeo que eu exibir pode ser este, não feito por mim - conta.

Depois da temporada de Artista trabalha Migliorin volta a participar de festivais mundo afora com seus filmes. O mais recente é Meu nome é Paulo Leminski (2004), de cinco minutos, no qual obriga os filhos Diego e Elisa, crianças, a recitar o poema homônimo ao curta-metragem. Os dois vão do enfado à raiva.

- Quando planejo um trabalho, somente estabeleço regras, não penso no que vai acontecer. Na verdade, minhas obras são pontes para que eu possa experimentar situações novas - resume.

Um comentário:

Molly Johnson disse...
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